Medo de saques e de novos desabamentos faz área afetada pela chuva em MG virar ‘cidade-fantasma’

Com 58 óbitos em Juiz de Fora e seis em Ubá, bombeiros já atenderam 83 chamados de soterramento e resgataram 239 vítimas com vida; mais de 5,5 mil estão desalojados

Três dias após as intensas chuvas que resultaram em deslizamentos de terra, desmoronamentos e pelo menos 58 mortes — além de seis na vizinha Ubá, também na Zona da Mata mineira —, bairros que precisaram ser evacuados em Juiz de Fora transformaram-se numa espécie de “cidade-fantasma”, em meio a lamaçal, muros derrubados e ruas bloqueadas. Nesta quarta-feira, poucos moradores arriscavam um retorno para buscar pertences e ajudar a retirar parte da lama. Alguns recolhiam itens devido à incerteza sobre a data de retorno; outros, tentavam se precaver contra saques, roubos ou até novos desastres.

Pelo menos oito bairros tiveram orientação de evacuação. No Três Moinhos, onde dezenas de casas foram abaixo — deixando entre os mortos uma criança de 5 anos — e sete ruas foram desocupadas, moradores se juntaram e ajudavam uns aos outros em uma força-tarefa para esvaziar as residências restantes. O resgate de animais, abandonados ou cujos donos não tinham condições de mantê-los nesse momento, era outro foco do trabalho coletivo.

Oswaldo Tadeu de Sá mora na parte baixa do bairro e já deixou sua casa para ficar, por enquanto temporariamente, com parentes. Na quarta, ele retornou ao local pela primeira vez com o único objetivo de contribuir com os vizinhos.

— Acho que não vai dar para ninguém voltar, não. Moro aqui há 40 anos e nunca tinha acontecido algo assim. O bairro cresceu muito, e, mesmo sabendo que era área de risco, continuaram construindo — narra.

A última casa evacuada no bairro foi a de Cláudio Alair. Até quarta, ele continuava no imóvel justamente porque vinha abrigando famílias desabrigadas. Com todos em novos destinos temporários, ele, enfim, seguiu para a residência da filha, levando os eletrodomésticos.

— Agora não sei se volto, vai depender da Defesa Civil. Como minha casa não está condenada, primeiro abrigamos famílias necessitadas, mas hoje também tivemos que esvaziar porque tem que evacuar a rua inteira — explica Alair.

Riscos relatados

 

A rua que dá acesso à residência de Felixon Delgado Mota está obstruída. Ainda assim, ele enfrentou um trecho de matagal, e muita lama, para chegar em casa a fim de retirar as duas televisões, pois, nos comentários entre a vizinhança, há relatos de risco de roubos, já que muitos locais estão vazios.

— A maioria das pessoas conseguiu descer antes dos desmoronamentos, mas agora voltei para buscar alguns pertences — diz Santos, que está temporariamente com a mãe e, na noite da tempestade, ajudou no resgate da cunhada, que estava presa em casa após a queda de uma parede.

Cleia de Melo retornou ao imóvel em que vivia até a tragédia pela mesma razão:

— Minha casa não caiu, mas a Defesa Civil mandou sair. Estão falando que tem gente saqueando, por isso vim checar.

Em meio aos temores, os vizinhos também formaram uma rede de solidariedade. Porteiro noturno, Gilberto Silva Costa atendeu aos chamados dos amigos para ajudar a retirar barro de ruas e de dentro das casas durante todo o dia. Com enxadas e pás, ele se uniu a outros moradores na missão.

— Ainda tem muito carro soterrado, lama nas casas. Tinham que dar mais atenção aqui à nossa área. A situação é triste demais — afirma Costa, que teme o retorno da tempestade. — Ontem (quarta-feira), quando voltou a escurecer o céu, a gente saiu correndo. Antes eu não tinha medo de deslizamento. Moro aqui desde que nasci, há 47 anos, e nunca havia acontecido algo assim.

Voluntários de outros bairros da cidade também se prontificaram. A estudante de Veterinária Gabriela Falcii mora no Bairu, mas quarta foi a Três Moinhos principalmente pelo relato da alta quantidade de cães e gatos que permaneciam no local. Enquanto ajudava a resgatar os bichos, também auxiliava os moradores na retirada de eletrodomésticos.

Ao lado de amigos que também se prontificaram, a jovem orientava quem não estava em condições de continuar com seus animais de estimação e informava sobre a existência de clínicas e lares temporários. Mas o que mais lhe preocupava eram os cães abandonados.

— Eles não têm a racionalidade de fugir, então muitos continuam lá, sob risco — lamenta Gabriela, com a voz embargada. — É uma desesperança, tem muito bicho, e eu não sei se vai dar tempo de retirar todos. Se voltar a chover, pode não ser possível.

O Grupo de Resposta a Animais em Desastres (Grad) é a principal ONG da causa que vem atuando na Zona da Mata. Em Juiz de Fora, o número de animais resgatados já passou dos cem, segundo a voluntária Mariana Souza:

— Muitas pessoas saem correndo e acabam deixando os animais para trás. A gente recolhe e leva para uma clínica, e depois para um lar temporário. Os moradores em condições buscam de volta. Se não, a gente tenta a adoção. Resgatamos tudo: cachorro, gato, galinha e passarinho. Nenhum fica para trás.

Adeus às vítimas

 

Enquanto isso, quem sobreviveu à força da enxurrada ainda se despede daqueles que se foram. Na quarta-feira, por exemplo, foram enterrados uma mãe, Patrícia de Castro Soares Gerheim, de 42 anos, junto de dois dos seus quatro filhos: Gabriel Arcanjo Soares Gerheim, de 12 anos, e Ester de Castro Soares Gerheim, de 10. Todos foram vítimas de desmoronamento no bairro Monte Castelo. Como havia muitas casas acima, os corpos demoraram a ser encontrados nos escombros.

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